O poeta é um fingidor. Finge tão completamente Que chega a fingir que é dor A dor que deveras sente.
E os que lêem o que escreve, Na dor lida sentem bem, Não as duas que ele teve, Mas só a que eles não têm.
E assim nas calhas de roda Gira, a entreter a razão, Esse comboio de corda Que se chama coração.
Não sei, mas meu ser Tornou-se-me estranho, E eu sonho sem ver Os sonhos que tenho.
Que angústia me enlaça? Que amor não se explica? É a vela que passa Na noite que fica.