Perigos e Precauções na Utilização de Agrotóxicos


Waldemar Ferreira de Almeida

Revista da Organização Mundial de Saúde
agosto-setembro 1984

Domingo de manhã: na praça principal de uma aldeia rodeada de grandes plantações de algodão, para um grande caminhão. Soa música e uma voz anuncia refrescos. "Venham todos, hoje as bebidas são gratuitas. Enquanto bebem um sumo de fruta, venham e vejam como matar as pragas que infestam as vossas plantações. Inseticidas que matam tudo! Não hesite, escolha o refresco que prefere; refrescante e delicioso, e grátis!"

As crianças e os adultos aproximam-se. À volta do caminhão forma-se rapidamente uma pequena multidão, todos pedindo um refresco. Ao mesmo tempo inicia-se uma discussão informal sobre os produtos mais eficazes, quantos insetos matam e qual a regularidade da sua utilização - 15 ou 20 vezes - numa plantação de algodão. Depois dos refrescos, em alguns minutos, inseticidas altamente tóxicos foram vendidos a todos, sem qualquer restrição, sem qualquer indicação dos perigos envolvidos durante o manuseio e aplicação. Há sugestões sobre o seu uso "preventivo" mesmo antes dos insetos nocivos fazerem a sua aparição!

Esta forma estranha de venda de inseticidas foi observada no Estado de São Paulo, Brasil, por uma equipe agromédica do Programa de Vigilância Ecotoxicológica de Pesticidas, da Universidade do Estado de Campinas. A mesma equipe encontrou, nos armazéns de uma plantação de algodão das redondezas, 120 inseticidas diferentes.

Nas regiões agrícolas, a maioria das pessoas compra e aplica os pesticidas segundo as informações que recebem de vizinhos, retalhistas locais ou vendedores tentando vender tanto quanto possível para ganharem mais. São poucos os agricultores que tentam comprar e utilizar segundo as recomendações fornecidas pelos agrônomos.

Em 1983, a equipe agro-médica do Programa examinou mais de mil trabalhadores da indústria de inseticidas no Estado de São Paulo e detectou casos de envenenamento ligeiros, moderados e graves. Vários trabalhadores falaram de um, dois ou mesmo três acessos prévios de envenenamento resultante da utilização errada de inseticidas. Na América Latina, isto acontece demasiadas vezes. Na cidade de Campinas, um grupo de crianças deu entrada no hospital duas horas depois de terem comido melancia contaminada com um inseticida organofosfórico altamente tóxico. Uma mulher ficou gravemente envenenada depois de lavar as roupas do marido que estavam impregnadas de endrina. Várias crianças morreram após aplicação na cabeça de um inseticida organofosfórico altamente tóxico para matar os piolhos. Muitos trabalhadores agrícolas queixam-se de dores de cabeça, tonturas e náuseas após a aplicação de inseticidas. Assim como, depois de permanecerem em áreas onde são aplicados.

São relativamente frequentes os casos de envenenamento grave provocado por inseticidas, incluindo alguns casos fatais, e que são considerados endêmicos entre os trabalhadores que manuseiam e aplicam inseticidas agrícolas em países em desenvolvimento. Mas nestes países, dados fidedignos sobre a mortalidade e morbidade de envenenamentos por inseticidas são raros, dado que muitos casos não são tratados por médicos e nunca são diagnosticados como envenenamentos. Mesmo nos hospitais e centros de saúde, a falta de equipamento adequado torna difícil a confirmação do diagnóstico.

Um estudo realizado no Brasil assinalou 3.445 casos de envenenamento por inseticidas, com 208 casos mortais, durante o período 1967-1979. Um outro estudo realizado no México em 1974, detectou entre os trabalhadores agrícolas 847 casos de envenenamento, com 4 casos mortais, envenenamento resultante da utilização de inseticidas organofosfóricos. Todos os anos há cerca de 375.000 casos de envenenamento causados por pesticidas dos países em desenvolvimento, com cerca de 10.000 casos mortais. A falta de proteínas na alimentação dos trabalhadores rurais é um fator adicional que torna tais produtos químicos ainda mais tóxicos e mais perigosos.

A contaminação, durante o transporte, de trigo e farinha por pesticidas altamente tóxicos, tem causado surtos epidêmicos de envenenamentos no Brasil, Colômbia, Jamaica e México. Um surto de "encefalite" observado na Guatemala há alguns anos foi determinado como sendo originado por farinha preparada com grãos de trigo que tinham sido tratados com fungicida de metil-mercúrio. Tais grãos estavam destinados para plantio mas tinham sido desviados para consumo. Um surto similar causou muitas vítimas no Iraque.

Produtos comerciais

Em alguns países, podem estar registrados como pesticidas mais de 1.000 compostos, formulados em muitos milhares de produtos comerciais. Os pesticidas importados pelo Terceiro Mundo durante o período 1974-1978 passaram de US$641 milhões para US$1.000 milhões, e em 1978 representavam 39% do comércio internacional de pesticidas. Atualmente vários países em desenvolvimento já produzem os seus compostos organo-clorados, inseticidas organo-fosfóricos altamente tóxicos e alguns fungicidas e herbicidas perigosos.

Em 1980 o Brasil importou 41.000 toneladas de pesticidas, quantidade que foi progressivamente decrescendo nos anos seguintes, à medida que aumentava a produção nacional de pesticidas. Em 1982, o Brasil importou 15.500 toneladas e produziu 124.000 toneladas.

A produção de inseticidas nos países em desenvolvimento podem ocasionar - se não for devidamente controlada - riscos adicionais para a saúde pública pois que os processos de síntese podem ser diferentes dos originais. Isto pode originar outros compostos tóxicos que ficam como impurezas a níveis perigosos.

Herbicidas voláteis aplicados em plantações de cana de açúcar podem ser facilmente levados pelo vento; atingem assim outras plantações vizinhas de algodão, feijão, tomate e papaia e destroem-nas. Está provado que as aplicações intensivas de pesticidas por meio de aviões poluem o ar e afetam as populações das cidades próximas, causando dores de cabeça, tonturas e náuseas.

Como conseqüência da contaminação dos rios pelos pesticidas altamente tóxicos os peixes mortos são às toneladas, o que representa uma perda substancial para as populações ribeirinhas.

Pesticidas organoclorados como o DDT, HCH ou BHC, aldrina-dieldrina, clordano e heptacloro, ficam no solo durante muitas anos e mesmo décadas. Passam progressivamente do solo para os cereais comestíveis, para a erva e eventualmente para o gado. Mais tarde, os resíduos são encontrados nos vegetais, grãos, frutos, carne e leite.

Muitos países da América Latina já possuem meios laboratoriais capazes de realizar a análise de resíduos organoclorados e organofosfóricos nos alimentos. Mas tais países ainda não possuem nem o pessoal técnico nem os meios para realizar um verdadeiro programa de controle alimentar.

Um controle limitado como o que se tem realizado em São Paulo demonstra que cerca de 7% dos frutos e 13% dos vegetais tem resíduos de pesticidas acima dos limites máximos.

Os países desenvolvidos proibiram ou restringiram o uso de muitos inseticidas. Contudo, continuam a exportá-los para a América Latina e outros países em desenvolvimento, onde esses perigosos produtos químicos são aplicados em cereais comestíveis ou em grãos ou frutos. Para fechar o círculo, tais alimentos são exportados para os países desenvolvidos que tentaram eliminar tais compostos. Acontece ocasionalmente que o mercado internacional recusa vegetais e frutos com resíduos acima dos limites máximos estabelecidos pelos países industrializados e importadores.

O uso generalizado de pesticidas persistentes e a presença dos seus resíduos nos alimentos resultaram na sua "armazenagem" praticamente em todos os indivíduos. Atingem um nível regular nos tecidos do corpo proporcional ao nível de absorção diária. Nos países industrializados tem-se vindo a observar um decréscimo no nível dos organoclorados no corpo como consequência da interdição ou restrição no seu uso. A quantidade de DDT presente no leite humano também tem vindo a baixar progressivamente nos países desenvolvidos desde 1960. Na América Latina porém não tem havido baixa nas duas últimas décadas.

A utilização indiscriminada e intensiva de pesticidas na agricultura tem sido responsável pelo desenvolvimento de resistência a muitos inseticidas organoclorados e organofosfóricos nos animais nocivos à agricultura. É por essa razão que atualmente são necessários novos compostos de grupos químicos diferentes para controlar tais animais.

Chegou-se mesmo à conclusão de que o número total de espécies nocivas poderá aumentar devido à exterminação de muitos predadores pelos pesticidas. Neste caso, os prejuízos nas colheitas poderão ser ainda mais graves do que antes da utilização dos produtos químicos. Na América Central, o número dos principais parasitas do algodão passou de dois para sete nos 10 primeiros anos de utilização de pesticidas, e o número de aplicações de pesticidas passou de dois a vinte por estação como resultado da destruição dos predadores e resistência dos parasitas. No Brasil e outros países da América do Sul também se tem observado o mesmo problema.

Entre as medidas que devem ser tomadas com urgência pelos países em desenvolvimento para impedir envenenamento grave e crônico assim como deterioração do ambiente pelos pesticidas, estão:

  • Boas práticas agrícolas e controle integral dos parasitas;
  • Preparação de pessoal em segurança química - incluindo formação de toxicologia clínica, profissional, analítica, experimental, preventiva e reguladora;
  • Avaliação dos riscos;
  • Programas de vigilância toxicológica;
  • Estatísticas de confiança sobre a mortalidade e morbidade relacionadas com envenenamento por pesticidas;
  • Análises de controle de resíduos de pesticidas em amostras de alimentos, no meio ambiente e em amostras biológicas humanas;
  • Utilização restrita de pesticidas altamente tóxicos e resistentes;
  • Cursos a vários níveis sobre a utilização segura de pesticidas;
  • Operários especializados, treinados periodicamente, e responsáveis pela aquisição e utilização segura de pesticidas;
  • Aplicação da legislação;
  • Esforços intensos para reduzir o analfabetismo entre os trabalhadores rurais;
  • Constituição de um Comissão Nacional interdisciplinar sobre pesticidas, atuando como órgão consultivo junto dos ministérios da Saúde, Agricultura, Trabalho e Meio Ambiente.

Governo e indústria

O papel do governo é de importância primordial para a utilização segura e adequada dos pesticidas. Para as autoridades é vital a informação permanente sobre todos os diversos problemas relacionados. As publicações editadas pela OMS, FAO, PNUMA e OIT fornecem valiosa informação sobre temas de saúde, agrícolas, ambientais e profissionais relacionados com os inseticidas. Estes documentos deveriam ser acessíveis para consulta diária por todas as pessoas encarregadas e interessadas na utilização segura e adequada de pesticidas.

As autoridades governamentais devem aplicar medidas para reduzir os riscos no manuseio e aplicação dos pesticidas, mas não é fácil transformar recomendações escritas em ações práticas e efetivas. Mas o sucesso na aplicação de tais medidas será uma forma de medir a capacidade do governo na gestão do desenvolvimento intensivo agrícola e industrial, e de produção intensiva de alimentos, mantendo ao mesmo tempo altos padrões de saúde pública, pelos quais se protegerão as populações rurais e urbanas.

Nos países em desenvolvimento, certos produtores vendem pesticidas sem qualquer aviso na embalagem, mesmo se tais produtos tenham sido banidos ou severamente limitados nos países industrializados. Justifica-se um Código de Conduta que poderia encorajar as indústrias de pesticidas a procederem da mesma forma nos países desenvolvidos e em desenvolvimento. Contudo, há muitos bons exemplos de indústrias que cooperam ativamente no Terceiro Mundo com autoridades locais e instituições oficiais.

O primeiro passo para a "participação popular" seria a disponibilidade de informações claras sobre riscos que os pesticidas representam para a vida humana e animal e para o meio ambiente. A disseminação de informações deveria fazer parte de um programa permanente desenvolvido pelas organizações internacionais para manter os governos e as populações conscientes dos riscos. O Programa Internacional sobre Segurança Química (IPCS) mostrou ser um componente muito importante nesta ação.

Finalmente, um sistema para ser eficiente necessita a participação das pessoas envolvidas e das organizações nacionais ativas em ecologia humana, ecotoxicologia e meio ambiente, para que seja rapidamente determinado se a legislação está em vigor, e se a produção, manuseio, transporte, armazenagem, aplicação e descarga de pesticidas sejam realizadas sem perigo, tanto para as pessoas que participam em cada operação como para o público em geral.

Waldemar Ferreira de Almeida