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Continuando na cauda do cometa... ...é uma deformação do sentido vital, cultural, histórico, dinâmico, autêntico e genuíno da Matemática - conquista e cultivo dos mais fantásticos e fascinantes como aventura criativa da razão, imaginação e intuição do ser humano - Que deformação ? - A que recebemos como herança sócio-cultural na escola. Intuição tanto mais fortes, flexíveis, saudáveis, unidas e frutíferas, quando estimuladas, valorizadas e integradas numa atitude consciente, como ingredientes constituivos, nutritivos, legítimos e imprescindíveis no processo educacional. que se comete usualmente é o desrespeito e a violência à inteligência e ao potencial riquíssimo e complexo de florescimento de habilidades desde a mais terna infância. A Matemática existe e vive, social e individualmente, em espaços, em mundos, em territórios de linguagens. Esse fato necessita especial atenção e cuidado em sua abordagem, uma vez que transitamos por entre diversas linguagens, tanto em atividade individual reflexiva como em situações de comunicação, estando presentes, simultânea ou alternadamente, elementos alegóricos, intuitivos, materiais, até via sugestões expressivas gestuais, verbais, faciais. Tudo isso configura sentidos múltiplos e muitas vezes superpostos e indistintos, e por isso mesmo gerando incompreensões, equívocos, obscuridades traumas e bloqueios consequentes disso, por falta de uma adequada, aberta, coerente, clara e assumida participaç˜o ao estudante, para elucidar e iluminar os variados aspectos presentes nessa arte/ciência. O conflito fica mais agudo, e sem solução produtiva, justamente pela prática do oposto do que está sendo descrito acima, como desejável, no ensino predominante da Matemática nas escolas, imperando uma postura impositiva, caricaturando e desfigurando a beleza, o vigor, a harmonia, o inesperado, o surpreendente que é inesgotável nas Matemáticas, e não somente acessível à fruição nos supostos níveis avançados e superiores, mas desde o início e sempre, por toda parte. A Matemática é irmã da Música, da Arte, da Língua, que é uma Pátria, do Jogo, do Divertimento, filha da Natureza, amante da Filosofia, da Poesia, cúmplice de Ciência, pulsa no Coração, no Cérebro, no Estômago, transpira pelos Poros e entra pelos Pulmões. Uma educação sadia e orgânica convida o estudante à aventura, oferecendo e provocando a irresistível atração do conhecido/desconhecido e da viagem através da criação lúdica na construção e discussão (como parte da construção) sobre os sistemas de signos e artifícios de representação e operação, que progressivamente vão sendo articulados, espelhando nossas intuições e imagens internas e externas, produzidas em nossa relação com o mundo (incluídos neste o nosso próprio, enquanto estrutura biopsíquica), atingindo porém, além de sua interconexão e relação de inspiração, origem, representação e ação no mundo, uma condição de independência, vindo a constituir-se num universo próprio. Ora, não se trata de desenvolver ou induzir a uma mistificação em relação à Matemática, devido a todos esses aspectos enigmáticos, intrigantes, reveladores, exatos, precisos e seguros que ela oferece. Antes, pelo contrário, coerente com uma postura de incentivo e fé no valor criativo e crítico potencial do ser humano, trata-se de incluir, propiciar e promover como parte das atividades de exploração, assimilação, amadurecimento, progressivo e gradual, do estudante - e dos professores - com respeito à Matemática, um contato íntimo e multifacetado com tudo isso acima mencionado, saindo sempre renovado, nas ocasiões pertinentes e naturais que surgem no percurso, com clareza, distinção e participação. Isso não vai dissolver o persistente mistério da possibilidade mesma disso tudo, mas ilumina nossa relação com ele, colocando-nos num intercâmbio produtivo. Ou então não estaremos caminhando e investindo na direção e construção da Civilização, mas numa fraude, alienando os seres humanos do seu direito à cidadania plena. O que opera-se na Educação é um crime na maior parte das vezes, e por quase todos os quadrantes, incapacitando as pessoas a uma integração ativa, consciente e responsável na vida em sociedade, com individualidade e solidariedade. A carência é planetária, a deficiência generalizada, apesar de toda a publicidade dos feitos e conquistas mirabolantes da tecnologia apontarem e desviarem a atenção para outro lado. O problema todo resume-se em que devido à uma educação atrofiante, esse espetacular progresso fica cada vez mais distante do suposto e enganado "cidadão" que vive num estado paradoxal, solicitado e assolado ostensivamente por esse mundo em acelerada transformação, e ao mesmo tempo exilado dele. É claro também que além das condições internacionais de crise, as nossas, a de nosso (?) país são peculiares e particularmente nos toca. O descaso e a irresponsabilidade na esfera educacional como reflexo de uma deteriorização de valores culturais assombrosa, são rotina e permanecem impunes, provocando nas pessoas que aspiram e trabalham por um mundo civilizado. Como resultado disso debilita-se ainda mais - como isso é possível ? - a saúde de uma sociedade combalida, desiludida, sem perspectivas, nem horizontes, descrente das instituições, com fortes inclinações derrotistas e conformistas, constituindo-se isso mesmo num peso a mais a favor do desastre, da miséria, da ignorância e de suas banalizações. Tudo, a partir daí, tende a desenvolver-se de mal para pior, restando nessas condições, somente aguardar o fundo do poço, não sem sobressaltos, e claro, com muita tensão e violência social. A respeito disso escrevia recentemente Gilberto Dimenstin, na Folha de S.Paulo, alertando sobre os perigos da inconsequência de considerar-se que para melhorar só se for para o fundo do poço; aliás, como ele mesmo aponta nesse artigo, essa opinião vem tornando-se cada vez mais forte e frequente, entre políticos e empresários. Para quem ainda tem pelo menos, um mínimo de discenimento, apesar de todos os efeitos perturbadores dessa violenta crise, sobre a capacidade de juízo crítico do indivíduo, grita aos olhos o abandono escancarado, admitido e recomendado, da ética e da responsabilidade básicas de sustentação da vida democrática em sociedade, apostando-se na catástrofe, enquanto lava-se as mãos. Receita perfeita para propiciar a desestabilização da Soberania e Democracia, sem as quais não se constitui uma Nação. Nesse quadro de relações sócio-culturais em vigor o elemento Educação é uma peça a mais no sistema todo que aliena, atrofia e mutila o ser humano, nem por isso deixando de ter um papel extremamente eficiente e determinante nesse processo de deterioração, reforçando-o e dando-lhe continuidade, contando, é claro, com o comodismo e condições perversas e adversas enfrentadas pelos professores, alunos e a sociedade em geral. O sistema educacional como um todo necessita de revalorização e reformulação urgentes, num esforço conjunto não só das instituições governamentais mas de todos que compartilham da consciência dessa necessidade. Essa reformulação inadiável deve ser produto e objeto de aperfeiçoamento cultural globalizante, visando um Humanismo Autêntico, promovendo a fertilização da imaginação e da capacidade de ação. Ecologia Radical, Ampla e Irrestrita. Axé.
Indicações Bibliográficas:
2) Na Fronteira do Futuro (O Projeto da UnB) - Cristovam Buarque - Série UnB - Editora UnB - 1989 3) O Direito da Criança ao Respeito - Dalmo de Avreu Dallari - Janusz Korczak - Summus Editorial 4) História das Crenças e Idéias Religiosas - Mircea Eliade, Zahar Editores 5) Educação Como Prática da Liberdade - Paulo Freire - Paz e Terra. 6) Matemática e Língua Materna - Nilson José Machado - Cortez Editores. 7) Fundamentos do Kaos - Jorge Mautner - Nova Stella. 8) O Homem à Procura de Si Mesmo - Rollo May - Círculo do Livro 9) a) Innumeracy - Mathematical illiteracy and its consquences - John Allen Paulos - Penguim Books. b) Inumerismo - Analfabetismo Matemático e suas consequências - J.A. Paulos - Forum da Ciência - Europa América - Lisboa. 10) Sobre os Direitos Humanos Básicos - Bhagwan Shree Rajneesh - Editora Naim. 11) Quem tem Medo da Ciência ? Ciência e Poderes - Isabelle Stengers -Edições Siciliano. 12) Teogonia - A Origem dos Deuses - Hesioldo - Estudo e tradução de Jaa Torrano - Editora Iluminuras. 13) Cantos de Maldoror - Conde de Lautréamont (Isidore Ducasse) |
| Rodrigo A. Siqueira |