19/10/97



    AOS 26 ANOS, RODRIGO DE ALMEIDA SIQUEIRA
    PODE SER CONSIDERADO UM GRANDE DESBRAVADOR.
    SÓ QUE ELE DESBRAVA UM TERRITÓRIO VIRTUAL:
    É UM DOS PIONEIROS E GRANDES CONHECEDORES
    DA INTERNET NO PAÍS

(Rodrigo Arco e Flexa, especial para o JT)

Rodrigo é um dos pioneiros desse universo virtual chamado Internet, a rede mundial de computadores que ganhou as capas de jornais e revistas nos últimos anos. Sem ter ainda concluído seu curso de Engenharia Elétrica na USP, aos 26 anos, ele é sócio de uma empresa especializada em serviços para a Internet, a Insite. Familiarizado com a informática desde a adolescência, ele adora "navegar" pelos milhões de informações arquivadas na rede.

Dentro dessa enorme malha de endereços virtuais e páginas eletrônicas em multimídia, as chamadas home pages, ele já conquistou e demarcou seu território. Batizada sugestivamente como Delirium's homepage (http://www.insite.com.br/bio/rodrigo/), sua página reúne um impressionante volume de material sobre tecnologia, artes e poesia, acessado constantemente por gente de diferentes países. Em setembro do ano passado, ele ganhou um concurso internacional promovido pelo Centro Nacional de Pesquisa Científica da França (CNRS), o maior órgão financiador de pesquisas daquele país.

Essa conquista foi um dos temas da conversa de Rodrigo Siqueira com o Jornal da Tarde, realizada em seu escritório, em um dos últimos andares do Edifício Itália, no cruzamento das avenidas São Luís e Ipiranga, centro de São Paulo. Conectado permanentemente à Internet, ele contou suas histórias e descobertas dentro da rede. Falou sobre a relação entre a ciência e a arte e apostou no potencial de crescimento da Internet: "As pessoas entram na rede e não querem mais sair. É uma coisa que veio para ficar, como o telefone e o rádio".

Jornal da Tarde - Você poderia contar a história da sua home page?

Rodrigo de Almeida Siqueira - A minha página é um lugar dentro da Internet que eu comecei há pouco mais de três anos. Um espaço onde eu colocava experimentos de coisas que estava aprendendo dentro da rede. Programas de computador, alguns textos, artigos, trabalhos que fazia. Quando percebi que muitas pessoas estavam consultando a página, organizei o material para elas se acharem dentro desse espaço de informações. Comecei a colocar outros assuntos também. Arte, poesia, música e imagens tridimensionais.

O que o levou a montar esse acervo virtual?

"A INTERNET ERA UMA MANEIRA DE ORGANIZAR AS MINHAS COLEÇÕES E AS COISAS INTERESSANTES"
Sempre tive mania de colecionar coisas. Mas fazia isso de uma forma desorganizada. A Internet era uma maneira de organizar as minhas coleções e as coisas que acho interessantes. Com a vantagem de que pessoas em qualquer lugar do mundo podem ter acesso a isso também. Acabei fazendo quase tudo em inglês. Tenho uma versão da página em português. Mas ela é menor. Dá muito trabalho ter uma página bilíngüe. A maioria das pessoas que acessa é do exterior. Muitas de países distantes. Já recebi mensagens do Japão, China, Suíça, Cingapura, África e República Dominicana. Quem entra na home page tem conexões para dezenas de outras páginas, que são subsites da minha página. Aqui tem informações desde a matemática pura até a poesia concreta. Tenho páginas sobre os fractais (imagens geradas em computador a partir de equações matemáticas), Carlos Drummond de Andrade e Fernando Pessoa.

Como você seleciona esse material?

Cada vez que eu aprendo uma coisa que acho que vale a pena ser divulgada eu coloco dentro da página. Uma vez li um livro do Conde de Lautréamont, um escritor pré-surrealista francês, que me deixou impressionado. Resolvi colocar algumas partes do texto na Internet. Muita gente começou a acessar a página, que era a única na rede sobre o escritor. Coloquei uma mensagem dizendo que queria ajuda para digitar o livro. Em poucas semanas pessoas do mundo inteiro mandaram os capítulos prontos. Montamos as obras completas do Conde de Lautréamont na Internet. Esse é um lado muito legal da rede. Se você pedir colaboração para qualquer coisa, sempre vai achar alguém para ajudar. A minha página tem crédito para todo mundo.

Em setembro do ano passado sua home page ganhou um prêmio internacional na França. Como você venceu o concurso?

Eu recebi uma mensagem da França por correio eletrônico dizendo que a minha página tinha sido escolhida. Não havia me inscrito em nenhum concurso. Pensei que era propaganda. Mas recebi outras mensagens. Telefonei e vi que era sério. O prêmio, Argos, foi criado pelo Centro Nacional de Pesquisa Científica da França (CNRS), o maior órgão financiador de pesquisas do país. Pela primeira vez eles estavam premiando trabalhos desenvolvidos na Internet. A seleção era internacional e dividida em duas categorias. Uma para trabalhos institucionais e outra para iniciativas pessoais. Minha página venceu a segunda categoria, chamada Lewis Carroll. Disseram que ela promovia a comunicação e a criação poética entre as pessoas. Viajei para Paris para receber o prêmio com quase todas as despesas pagas. Fui super bem recebido.

Como foi receber um prêmio desse porte?

No começo do ano passado eu ganhei um prêmio de Portugal pela minha página sobre Fernando Pessoa. Mas aquele concurso não tinha uma abrangência tão grande. Fiquei muito contente. Isso mostra que estamos fazendo coisas importantes no Brasil, que despertam o interesse de pessoas em outros lugares do mundo.

A ciência e a arte podem andar juntas?

A relação entre a arte e a tecnologia está se fortalecendo. Os limites entre as áreas do conhecimento não estão mais definidos. É importante que o engenheiro converse com o filósofo, o físico com o biólogo. O conflito de idéias traz coisas novas.

A Internet é o seu principal meio de comunicação?

Como eu trabalho com a Internet, a maior parte das pessoas com quem converso é por meio da rede. Tenho clientes, fornecedores e parceiros que nunca vi pessoalmente. Com muitos nem falei por telefone. Recebo entre 30 e 40 mensagens no correio eletrônico por dia. Tento responder a maior parte, mas não é possível. Isso é mais um motivo para deixar imagens, programas e fórmulas disponíveis na minha página.

Como você se sente conversando com uma pessoa sem saber como ela é?

Aqui as pessoas não entram querendo se conhecer fisicamente. Elas começam a trocar idéias, que não dependem de como elas são realmente. Elas falam coisas que não diriam se estivessem olhando frente a frente. Muitas usam pseudônimos. Você não sabe realmente se quem está do outro lado é homem ou mulher. Qual é a sua idade, em que lugar do mundo está. Assim as pessoas falam das coisas que gostam de fazer. Trocam imagens e poesias.

As relações de amizade não ficam impessoais na rede?

A Internet não vai substituir o telefone ou o contato físico. Nós temos necessidade disso. A rede é simplesmente uma forma de comunicação mais rápida e eficiente. Com a Internet encontrei amigos que não via desde criança.

Você passa quantas horas por dia na frente do computador?

Eu uso bastante porque trabalho com isso. Mas faço outras coisas fora do computador. Gosto muito de sair, vou ao teatro, a shows e a espetáculos de dança.

A maneira como as pessoas se relacionam com a Internet é diferente do que acontece com as outras mídias?

Totalmente. A grande maioria das pessoas que assistem à televisão não têm atividade nenhuma. Elas ficam na frente da tela recebendo informações num estado quase hipnótico. Com o rádio, a maior interatividade que você tem é ligar para pedir uma música. Na Internet, a gente pode participar, acrescentar e alterar coisas a todo momento. É diferente de um livro. Se ele sai com um erro você vai ter que refazer tudo ou esperar uma segunda edição.

"É MUITO MAIS CÔMODO LER UM LIVRO DO QUE OLHAR A TELA DO COMPUTADOR. ELA CANSA E DÁ DOR DE CABEÇA"
A Internet vai acabar com os livros?

O computador é bom para achar uma referência. Mas é muito mais cômodo ler um livro do que olhar a tela do computador. Ela cansa, dá dor de cabeça. Você não pode levar o equipamento para qualquer lugar. O computador não substitui o livro. Uma forma complementa a outra.

Como você começou a se envolver com informática?

Desde pequeno me interessei pela área de ciências. Quando tinha 12 anos, praticamente obriguei os meus pais a comprarem o meu primeiro computador. Queria entender como a máquina funciona.

Quando você começou a se comunicar por meio de redes de computadores?

Com 13 anos comprei um modem para ligar o computador ao telefone. Queria me comunicar com o resto do mundo. Na época havia alguns sistemas on line onde a gente conhecia outras pessoas, trocava textos e informações. Mas a comunicação era muito lenta.

Você é estudante de Engenharia Elétrica na USP. Qual é a importância da universidade na sua formação?

Em 1992, quando entrei na universidade, comecei a ter contato com coisas novas. Alguns institutos da USP já estavam ligados à Internet, como o Instituto de Matemática e Estatística (IME) e o Instituto de Física. Fiz o meu projeto de iniciação científica em computação, no IME. Em 1993 surgiu a World Wide Web (WWW), um sistema que permitia você transmitir informações em multimídia na Internet de uma forma muito mais amigável. Conheci as páginas que as universidades americanas montaram na WWW. Além de bonitas, elas facilitavam a busca de informações. Resolvi criar páginas na Internet para a USP também. A universidade estava na rede, mas só era possível trocar correio eletrônico. Instalei os primeiros servidores na USP para permitir isso que a gente chama hoje "navegar na Internet".

Qual foi o apoio que você teve para esse trabalho?

O apoio que tive do Laboratório de Sistemas Integráveis (LSI), da Escola Politécnica, foi muito importante. Era estagiário no laboratório e tinha acesso completo à Internet. Meu orientador, Marcelo Zuffo, e a equipe do LSI me deram todos os recursos para fazer o que quisesse. Mas não existia apoio oficial. Quase ninguém se interessava pela rede na universidade. Acabei fazendo as primeiras 400 páginas da USP na Internet. Era uma forma de provocar as unidades para que elas tomassem a iniciativa de colocar suas informações na rede. Depois de mais ou menos um ano a WWW passou a ser organizada pelo próprio pessoal da universidade. Foi criado o USP on Line e agora várias unidades têm servidores.

É possível viver com pesquisa científica no Brasil?

Antes era mais pessimista. Vi muitos pesquisadores ganharem menos do que mereciam. Foi por isso que abri uma empresa para prestação de serviços, a Insite. Os quatro sócios vêm da USP, dos cursos de engenharia e computação. Aqui a gente faz aquilo que gosta. Trabalhamos com redes de computadores, sistemas de segurança e desenvolvemos projetos. Temos clientes grandes, como a Rede Abril de Telecomunicações, Agência Estado, Brahma e Philips. Com o retorno que temos posso financiar minhas próprias pesquisas. O problema é conciliar a universidade com o trabalho.

Qual é o futuro da Internet?

Acho que estamos no ponto máximo de seu crescimento no Brasil e no mundo. Hoje a rede está mais rápida do que no ano passado, quando estava mais rápida do em 1995. As empresas estão montando estruturas para suportar mais gente na rede. As pessoas entram e não querem mais sair. É uma coisa que veio para ficar mesmo, como o telefone e o rádio.

Você consegue imaginar o mundo daqui a 20 anos?

É muito difícil. Não conseguimos nem imaginar como será a próxima semana. As tecnologias estão mudando muito. Mas com certeza a comunicação internacional de dados vai ser uma coisa mais útil e mais usada do que o telefone. Vamos conversar com gente do outro lado do mundo como se estivéssemos ao vivo. Espero que a tecnologia permita que as pessoas tenham mais tempo livre para outras atividades, e não só o trabalho. Mas isso está um pouco distante. As pessoas ainda estão começando a entender o que são os novos meios de comunicação, a informatização e a robótica.

As novas tecnologias podem vir a ser um instrumento de controle da sociedade?

"AS PESSOAS ESTÃO COMEÇANDO A ENTENDER O QUE SÃO OS MEIOS DE COMUNICAÇÃO"
A estrutura da Internet hoje é anárquica e descentralizada. A rede está conectada como se fosse uma enorme teia, passando por todos os tipos de culturas. A Internet é muito aberta e democrática. Os governos já tentaram impedir que certos tipos de informações circulassem pela rede. Mas não tem jeito. Se você tapa o buraco de um lado, ele surge maior do outro lado.

Qual a sua opinião sobre a pornografia na Internet?

Os endereços de pornografia são muito procurados. Mas não vejo isso como um problema. O fato de existir pornografia na rede não significa que você vai ver coisas que não quer quando entrar na Internet. As pessoas que acham pornografia estão procurando por isso.

O computador é a droga dos anos 90, como disse o guru da contracultura Timothy Leary?

Talvez, se considerarmos as drogas como uma forma das pessoas escaparem da realidade e buscar novas experiências. Timothy Leary achava que o computador permitiria algo próximo a isso. Às vezes nos comunicamos com pessoas que não achamos que sejam pessoas. Elas são como entes de mundos surreais, coisas abstratas. Temos até experiências emocionais dentro do computador com pessoas que estão do outro lado do mundo. É diferente do que temos em nosso dia-a-dia. Isso traz um fascínio muito grande. Você pode montar sua própria comunidade dentro da rede.

A Internet era uma maneira de organizar as minhas coleções e coisas interessantes. As pessoas estão começando a entender o que são os novos meios de comunicação . É muito mais cômodo ler um livro do que olhar a tela do computador. Ela cansa e dá dor de cabeça.